DIA 9

Eu e meu coração

O dia seguinte sempre nasce em branco. Desde que comecei a escrever para o blog, penso ao acordar: sobre o que será que vou escrever hoje? Não me forço a saber. Sei que, em algum momento, uma clareza maior vai pairar. As palavras, em algum momento, vão se juntar.

Hoje — dia 9 no blog — quero explorar o que meu coração realmente está tentando dizer. Meditando tive a sensação, e onde tem sentimento, tem palavra. Pensando bem, acho que hoje eu matei a charada. Hoje, eu falo sobre o meu coração. E tudo o que ele quis — e ainda quer — dizer.

A sensibilidade que tenho hoje ao perceber que sei ser guiada pelo que sinto me mostra o quanto, em muitos momentos, estive cega. Sei reconhecer as batidas e a pulsação de quando estou — ou não estou — no caminho certo. E gostaria (pelo menos é minha esperança) que todo mundo tivesse dentro de si essa mesma sensibilidade. Alguns anos atrás, li um livro sobre pessoas sensíveis. Ele tinha 300 e poucas páginas e me afirmou, em todas elas, que sensibilidade não é uma fraqueza, nem algo negativo. Minha percepção mudou.

Hoje, ainda estou buscando essa sensibilidade para escrever. Minha esperança é chorar enquanto escrevo. Sei que cheguei no lugar certo quando choro.

Na meditação de hoje, me senti em branco. Uma página nova. Será essa a verdadeira sensação de ser uma nova pessoa? Quando a vida coloca essas divisões? Tem um número certo de aprendizados, sofrimentos ou alegrias para se tornar alguém novo?

Talvez eu esteja buscando controle nessa escrita.

Vamos supor que, a cada dia, você se tornasse uma pessoa diferente. Algo realmente mudaria? Digo… minha vida parece a mesma. Ainda tenho de comer, beber água, dormir… agora, me exercitar. Será que a mudança vem da percepção ou da necessidade?

Talvez dos dois. Da necessidade, a percepção.

Pensando no passado, em conversas ou memórias. Vejo que o eu de hoje jamais faria as mesmas coisas. Mas o eu do passado… não teria como não fazer. Era o que estava disponível ali no momento.

Mas esse não é o foco que quero seguir.

Hoje, meditando, me senti em branco. Mas, ao mesmo tempo, completa.

Lembrei de uma cena do filme Doutor Estranho, quando ele encontra a Anciã. Ela diz que, para controlar o poder, ele teria de soltar o controle. Ele responde que não entende como. E ela reforça: silenciando o ego, o poder aumenta. Trazendo isso para a vida real, a única diferença é que não temos poderes visíveis.

Mas eu realmente acho que resiliência e calma são uma espécie de poder. Ver alguém se manter estável numa situação de desconforto ou desavença é raro. Vamos concordar.

Então, ouvindo o coração — sabendo que entre a mente e o órgão que faz o nosso sangue circular existe um abismo gigantesco que nos faz usar a palavra intuição em determinadas circunstâncias — começo a entender melhor esse espaço entre razão e sentir. Algumas obviedades da mente são silenciadas pelo revertério interno da intuição, que, muitas vezes, diz o contrário.

É aí que quero chegar. No fundo, sabemos disso. Sabemos que existe algo além do racional que guia nossas escolhas. Existem pessoas que não têm essa sensibilidade — por X razões. Às vezes, essas razões são tão enraizadas que não tem jeito. Nem todo mundo é mundo. E aceitando isso, você tira o peso do mundo das costas.

Acredito que essa sensibilidade para a voz interna pode ser aprimorada. Treinada. Racionalizada, até. Podemos equilibrar esses dois pontos de partida: a mente e o coração.

E agora digo como experiência individual. Digo sendo Lívia — e não escritora: cada pessoa é um mar diferente. E para cada tipo de maré, se precisa de um nado diferente. Ninguém nunca vai trazer a resposta na bandeja, mas a bandeja sempre vai estar lá.

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