Dia 10
A cor azul
Minha avó, por parte de mãe, sempre gostou do Tim Maia. Me dei conta há algum tempo disso e percebi como posso traduzir, através das músicas que sempre ouvi, o que sinto hoje sobre minha vida.
Um dos pensamentos que tenho tido frequentemente é sobre a forma como me apresento no mundo, como o mundo me recebe, e o que eu espero de todos esses encontros. Para ser bem sincera, não acho que sou o tipo de pessoa que busca performance apenas para se expor. De certa forma, sim — isso está dentro de todo ser humano — mas sei que não busco meu melhor só para mostrar.
Na música Azul da Cor do Mar, Tim Maia canta:
“Se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar. Dizer que aprendi.”
Sinto que minha performance é um pouco disso. Tenho vontade de contar tudo o que aprendi.
“Ver na vida algum motivo pra sonhar. Ter um sonho todo azul. Azul da cor do mar.”
(É uma música muito boa, convenhamos.) Com a gaita de fundo, dá pra sentir a destreza ao falar em como muitas pessoas sofrem por não terem um sonho azul da cor do mar. Eu nunca desejei ser o tipo de pessoa que não tem um sonho. Pelo menos algo pra contar, eu sempre desejei ter.
Volto à pergunta: quem estou me mostrando ser? Será que estou dando forma ao meu sonho todo azul? Será que as pessoas veem que o meu sonho é me comunicar? Que pelo menos estou vindo achar minha razão de viver — como ele também diz na música?
Ao mesmo tempo, vejo que não devo pensar tanto nisso. Mas, de certa forma, é assim que todo humano pensa: queremos mostrar que estamos nos nossos melhores. Seja qual “melhor” for.
Na música Tudo Vai Mudar, ele diz:
“Depende um pouco do meu próprio esforço
e eu vou ser feliz.”
Em Meu Samba, também fala:
“Resolvi voltar, resolvi verificar.
Se todo mundo, se o mundo inteiro,
gosta de sambar o meu samba.”
Por enquanto, vejo que minha performance é depender do meu próprio esforço para ser feliz. Mas isso sem contar com a forma dos outros de ver o meu samba. Sem esperar aplausos, por estar fazendo o mínimo por mim mesma. Tenho gostado de como minha vida vem fluindo. E, internamente, vejo que meu samba tem tomado forma — a minha real forma. O real valor de valente condutor, para que meu próprio esforço traga a felicidade que o meu sonho azul carrega.
Às vezes me pergunto se estou fazendo a coisa certa. E sei que os primeiros passos são os mais demorados. Sei também que, nesse momento, não posso olhar para trás, pra ver se as pessoas gostam de sambar o meu samba.
Na música Descobridor dos Sete Mares, ele afirma ser guiado por uma luz azul e que os recifes lá de cima avisam os perigos de chegar.
Também acredito ser guiada por algo maior do que posso explicar. Minha vontade de estar aqui, de braços sempre abertos, sempre a esperar, é vivida dentro de mim. O meu sonho todo azul tem um pouco dessa forma — mas, ao mesmo tempo, conto com o meu próprio esforço para ser feliz.
Vejo como minhas ideias têm uma forma e uma direção específica. “Uma luz azul me guia” pode traduzir essa direção que eu tenho.
E a minha confiança e fé podem se traduzir em: “Uma lua me ilumina, com a clareza e o brilho do cristal.”
“Transando as cores dessa vida, vou colorindo a alegria de chegar.”
Envolvo muita da minha esperança e positividade em achar que também estou colorindo a minha alegria de chegar. No meu sonho azul da cor do mar, dependendo um pouco do meu próprio esforço.
Vejo que a forma como me apresento é de braços abertos, sempre a esperar. Já estou bem à vontade, vendo minha origem, meu passado e meu futuro. Sabendo que tudo vai mudar.
Não posso ainda afirmar que meu samba está sendo sambado da forma que eu espero dentro da minha cabeça — pelas outras pessoas (as que me leem). Mas posso dizer que posso viver tranquila e disposta, pronta pra ser guiada até onde desejo chegar.
Vejo que um pouco de todos os meus receios e medos vivem só dentro de mim E até se parecem com:
“Saber seu nome, origem, da onde vai e da onde vem” — na música Que Beleza, dele também.
Sei que meu sonho azul existe. E que algo me leva até ele. E se depender do meu próprio esforço… vou ser feliz.
Muito da onde eu quero chegar já mostra estar aqui. Se eu não fosse sensível e compreensiva o bastante, não me daria conta dessas coisas e seria a pessoa que não tem um sonho azul da cor do mar, como ele diz.
Na música Ascenda o Farol, finalizo aqui com as frases:
“Se alguém me amou e foi-se embora,
você pode se encontrar, você deve se ajudar.
E viver tranquilamente, sentindo-se disposto.”
O meu esperar por algo ou alguém que se vai — sabendo que eu posso me ajudar — me faz voltar a ver que o meu sonho todo azul é apenas meu.
E que com a clareza de um brilho de cristal, vou conseguir fazer com que todos gostem de sambar o meu samba.
Mas voltando para: como eu me apresento no mundo e como o mundo me recebe
.
Vejo que, onde estou, e da forma como estou me mostrando ser, estou sendo abraçada pelo mundo da mesma forma que busco abraçar ele.
É uma conclusão simples.
Mas o intuito aqui é me sentir bem a vontade, descobrir os meus sete mares e não guardar o meu sonho todo azul.