DIa 11
Saiba que sabe.
Terça-feira, dia 25. Me peguei atolada de pensamentos. Para ser sincera, nem lembro o que aconteceu no meu dia, de tanta coisa que tinha nele. No fim da noite, nada mais me fazia sentido. Minha mente não podia mais processar nenhuma informação — o celular, o computador, nem os livros, e nem as palavras iam conseguir tirar de mim o sentimento. Encontrá-lo, ou mesmo identificá-lo.
Abri a janela do meu quarto e deitei no silêncio, esperando o manifesto do algo que já estava ali. Mas normalmente, quando esperamos por algo, esse algo não acontece da forma que esperamos.
Ali, com a janela aberta, vejo meu ambiente, percebo a quietude e noto como realmente só existimos porque conseguimos atravessar o pensamento e ter a consciência do saber. Penso, logo existo — sim, a famosa frase filosófica, que pode não parecer tão grande, mas é extremamente elaborada no real significado das três palavras que a compõem.
Vi ali o que o ambiente era sem a minha interferência ou intenção: um quarto escuro. Os sons e feixes de luz ainda passavam pela janela. O silêncio era eterno, até que um som passageiro o atravessasse.
O que esse ambiente seria sem a minha consciência ali? Penso que nada. O quarto escuro não sabe que é um quarto escuro — ele só é um quarto escuro porque eu estou ali.
Acho que nunca cheguei a comentar, mas fiz um semestre de faculdade de Filosofia. Sempre fui muito entretida com a arte do saber. E o como sabemos saber é algo que, por si só, já vale a atenção de qualquer pessoa. Vale a construção do pensamento individual. Te tira bastante do pedestal que, no decorrer da vida, a gente vai se colocando.
O período da faculdade foi significativo. Não parei de estudar depois de trancar o curso, mas foi um estudo muito mais informal — e eu só mergulhava mesmo nos mares que queria (o que tudo bem). O estudo da filosofia não é exatamente exato. Existem milhares de formas e caminhos pra se aprofundar. Como eu sempre busquei um significado por trás das coisas, não foi uma tarefa difícil parar, ver, pensar, me questionar e deixar a ideia de lado. O problema da filosofia é que ela não tem fim. Podemos ficar argumentando sobre uma única coisa por milhares de eternos anos. A filosofia é um campo que não te limita o pensamento (justamente a intenção dela).
Então, penso logo existo. Se não sabe, não existe. O caminho não é trilhado. Logo, o caminho não existe. E a probabilidade…não existe probabilidade.
Isso abre margem para as coisas não pensantes, como o quarto escuro. Ele está lá, coisas passam por ele, mas ele nunca terá a capacidade de ser algo por conta própria. O significado de todas as coisas está na nossa mente — e no saber que ela existe.
Aqui está a solução de muita coisa. Se você não quiser algo — seja uma pessoa, uma situação, uma circunstância ou uma probabilidade — busque não saber. A arte do desapego e da indiferença é uma dádiva para nós, seres pensantes que sabem um pouco de muitas coisas e que se acham o centro do universo.
De certa forma, sabemos que estamos aqui. Sabemos que a vida existe. Se não fôssemos capazes de pensar e racionalizar a vida, ela não seria por completo… a vida. Seríamos como uma joaninha ou uma árvore. A vida existe dentro desses seres, mas eles não sabem que há vida ali. Eles seguem os instintos e as inclinações naturais que a evolução proporciona.
Mas voltamos a nós, meros seres que pensam. Sabemos que estamos aqui — mas essa também é a única coisa que sabemos, tirando toda a vida que vivemos e toda a influência que temos dentro dela. Sabemos que nascemos, crescemos e morremos. Mas também não sabemos do antes e do depois dessas datas.
Então, o dia de hoje é uma dádiva também. Mais uma vez, a conta milagrosa da vida fecha — e temos sorte de saber que estamos aqui. Percebe a fragilidade?
O problema, em questão, é a perspectiva. Estamos muito enraizados no que sabemos. Esquecemos que, ao menos, sabemos. E que, se um dia a conta da vida não fechar, já não saberemos mais — e, bem provavelmente, você terá passado muitas dores de cabeça à toa. Sim, à toa.
Nada é tão grande quanto uma queda do pedestal, um quarto escuro e uma mente pensante.
Saiba que sabe. E se contente com isso. Tudo o que vier depois é pequeno, comparado com o poder do saber.
Saiba que sabe — e se enquadre, onde quiser, do saber. Pense, ao menos uma vez na vida, que é pequeno e frágil.
Uma vez vi uma idosa, muito consciente e lúcida, falando:
“A morte é só a ausência de consciência. Vamos perdendo com o tempo, e um dia ela simplesmente se esgota.”
Finalizo por aqui.
A filosofia é flexível nas ideias, mas extremamente dura na interpretação, cabe a cada um, saber doque sabe.