DIA 12
Rotina e achismos.
Fui o tipo de pessoa que por muito tempo achava que precisava de uma rotina regrada, cheia de afazeres e detalhes, metas diárias, coisas, coisas e coisas. Mudei de percepção faz pouco tempo (ontem).
Me dei conta de que esse pensamento começou a tomar formato quando comecei a trabalhar e precisava acordar muito cedo pra pegar o ônibus. Eu morava no centro e a empresa ficava beirando a estrada. Não era um trajeto muito longo, mas eu ficava cerca de 40 minutos dentro do ônibus. Para pegá-lo, tinha que fazer um caminho de meia hora andando até chegar no terminal.
Era um tempo gasto, mas que tinha um propósito: chegar no horário. E, por ter um horário de início fixo, um horário de término também foi chegando com o passar dos dias. Todo o restante da minha rotina foi se adequando aos meus horários, que não tinha choro e nem vela para serem alterados.
Hoje tenho a oportunidade de não ter nada fixo no meu dia. Trabalho quando me sinto confortável, vou treinar quando sinto um pico maior de energia no dia, e todo o resto dos meus afazeres vou encaixando nos momentos “livres”.
Até pouco tempo, eu achava que era necessário, preciso, ter horários fixos e um absurdo não ter. Comecei a me queixar.
Todas as vozes na minha cabeça discutindo sobre todos os tipos de desavenças morais e dando adendo a toda produtividade tóxica que nossos queridos criadores de conteúdo vão nos empurrando. E quando você vê, se não acorda às 23:99 pra começar o dia, você já perdeu.
“Sinto muito, você não se enquadra nas pessoas boas e belas.”
Durante essas discussões internas, uma fala gritou dentro de mim:
“Eu sempre gostei de acordar às 11h da manhã.” — Silêncio. Uma verdade foi dita.
Eu sou o tipo de pessoa que passa horas dormindo. Lembro de ser criança, ir dormir depois do Jornal Nacional e acordar perto do final da TV Globinho. Minha avó fala que é porque eu comia muito alface quando era pequena (pode ser um pouco pela genética — minha mãe e meu pai também são bem de sono). Mas gosto de falar que é por conta do alface também.
Nisso, percebi que não havia ninguém segurando minha flexibilidade além de mim mesma — para encontrar uma forma mais saudável de passar os meus dias. Como é um paradigma quebrado há muito pouco tempo na minha mente, ainda estou me adaptando, mas fiquei com a sensação de que estava me “destruindo”, forçando minha mente — e principalmente o meu corpo — a se negligenciar pela “saúde”. (Ainda pasma.)
Agora, não sei se esse estigma estava só dentro de mim ou se realmente é algo normal por aí. Quem será que inventou isso e por que será que eu caí nessa cilada?
Estou crescendo. Estou perto de fazer 21 anos, e eu me acho bem inteligente de vez em quando, mas quando vejo esse tipo de deslize, me sinto — não falo palavras negativas sobre mim mesma.
Nisso tudo, vejo o quão pouco eu sei. E ainda mais: o quanto estou alheia à influência externa, tanto das mídias (principalmente pelas mídias) quanto da necessidade de ser algo que não sou — pela esperança de uma alta performance. Pelo achar que alguém se importa com o horário que eu acordo ou com a quantidade de coisas que sou capaz de fazer em um só dia.
Aqui bato na porta das coisas que realmente importam: a longevidade.
Até onde eu seria capaz de ir buscando algo que não é estritamente meu? Até onde meu corpo aguentaria ir até ele mesmo dar um jeito de falar “para”? São perguntas para as quais eu nunca quero saber a resposta.
Vejo hoje, sendo um pouco mais flexível do que ontem, que o meu tempo é realmente diferente do das outras pessoas. E que a minha forma de funcionar é realmente só minha. Os detalhes que me agregam e aderem são só meus. E aqui a gente vai direto ao campo do autoconhecimento.
Eu sei realmente o que me serve? Tudo isso que estou vivendo faz sentido pra pessoa que eu realmente sou? Isso vai além da rotina, vai além dos horários e das atividades.
— Será que essa forma de ver a vida realmente é minha? —
Pela juventude dos pensamentos que todos temos, somos capazes de ao menos nos perguntar se isso aqui, agora, faz sentido. E também caímos no paradigma de que a mudança requer muita disposição.
Mas, às vezes, só de encontrar uma resposta própria pra questões simples e gerais já é uma grande mudança.