dia 3

Introversão x Exposição


Ontem, terminando minha aula de yoga, foi oferecida uma adaptação de uma postura que raramente faço. Por raramente fazer, não tenho muita intimidade com ela, mas a adaptação me serviu, e ali, vendo que posso me adaptar até em coisas que quase nunca faço, estava pensando sobre o que iria escrever hoje. Olhando para os meus pés, pensei que poderia falar um pouco sobre minha introspecção e como foi receber isso. Então apresento hoje: a voz do meu silêncio e como eu a descobri.

Tenho a grande sensação, desde a infância, de que vivemos em algo vazio. A vida nunca fez muito sentido para mim. Lembro de uma festa que aconteceu aqui em casa, e toda a família da minha avó veio. Lembro sempre do meu tio-avô, em específico, quando revivo essa sensação. Ficamos no quintal, como sempre eram as festas aqui em casa, e a minha lembrança desse dia não é da festa em si, mas do meu sentimento depois de tudo ter acontecido.

Eu não vou lembrar ao certo quantos anos eu tinha, mas me arrisco a dizer que entre 6 e 7.

(essa sou eu entre 6 e 7 anos)

Todos já tinham ido embora, e eu estava sentada no degrau do banheiro, que fica virado para frente da horta da minha avó. (Na foto estou no quintal e do lado do degrau) Lembro de estar ali, só sentada. Eu não tinha com o que me preocupar. Lembro de só estar no ambiente e estar consciente de só estar ali. Então era eu, o ambiente e o pensamento. Meu pensamento era de que justamente não tinha mais nada ali: nenhum barulho, nenhuma pessoa, só eu, o céu da noite e a horta. A vivida sensação de que ali eu fazia parte do silêncio me revisita até hoje de forma completa. A horta da minha avó ainda é a mesma, e o céu da noite também. Nem sempre encaro a sensação, mas lembrando hoje vejo de forma clara o que estava acontecendo ali: a voz da minha própria consciência vagando pela minha mente quieta.

Esse é o céu que paira sobre a casa da minha avó. O muro alto do vizinho e o pé de acerola que toma conta de toda horta sempre estiveram ali. Esse é justamente o céu que sempre via e ainda vejo.

(Na foto de cima, se eu estivesse olhando para o céu, essa seria a minha vista)

Sempre tive essa sensação do silêncio dentro de mim e, durante muitos anos, foi difícil entender o que era exatamente e o que significava. Durante minha adolescência, foi difícil abraçar isso, pelo justo fato da adolescência. Chegando perto dos meus 16 anos, eu vivia com a sensação de não saber quem era, por não conseguir me identificar com as coisas com que os demais jovens se identificavam. A sensação que eu tinha era de não estar realmente ali, e na época eu interpretava aquilo como uma insegurança ou algum tipo de fraqueza. A pandemia chegou e, devido a todo o barulho da adolescência, os primeiros momentos em silêncio foram desafiadores. Ali, sim, encarei o fato de não saber quem eu era. Lembro de me olhar no espelho e não saber quem era aquela pessoa que via.

Com o passar dos meses, me deparei com muitos sentimentos, e um deles era uma possível doença mental (não era). Mas, com medo do meu sentimento e medo da possível doença, comecei minha busca por identificação.

‘Afinal das contas, o que essa menina do espelho gosta?’

De uma forma sutil e delicada, comecei a me questionar as coisas mais básicas, desde o que eu gosto de comer, ouvir, assistir, sentir… E conforme fui me conhecendo, fui destravando os próximos passos até me deparar com a prática da meditação. Infelizmente, não me lembro exatamente como isso chegou até mim, mas eu já estava na fase de busca em que algo superior precisava fazer sentido. Uma religião, uma crença… Enfim. A meditação chegou, e lembro de ficar fascinada com a ideia de estar acordada e não pensar em nada. Toda minha atenção se voltou a isso. Comecei a meditar e entender que o fato não era não pensar, mas sim ficar em silêncio. O silêncio como ato contemplativo é complexo, pois nem sempre do silêncio vem a quietude, e nem da quietude, o silêncio.

A forma mais prática que encontrei de meditar foi ouvindo música instrumental, qualquer tipo de música que não tenha vocal (inclusive é o que estou escutando agora para escrever. Em específico: Married Life - Ty’s Music) (é a flauta do filme Up). Lembro de deitar na cama, colocar os fones e esperar ansiosamente pelo sentimento que iria surgir. A mesma música, em diferentes dias, me mostrava coisas diferentes, e acredito que, de tanto isso, cheguei a um nível em que, fora do ato, eu estava em estado meditativo.

Passei a me dar conta de que minha mente estava quieta quando, em público, as pessoas pareciam revoltadas com qualquer coisa. Nunca tive problemas em esperar um ônibus atrasado ou ficar em uma fila grande no mercado.

Todo esse processo aconteceu durante a pandemia. Nessa época, eu já trabalhava, mas era praticamente a única pessoa que ia presencialmente. Iam algumas, mas não no meu setor e nem faziam o mesmo trabalho que o meu. Então, resumindo, eu ficava o dia todo sozinha.

Quando a socialização voltou a acontecer, eu, com minha mente quieta, passei a estranhar tamanhas movimentações. Todo mundo, de repente, estava no mundo de novo, e receber isso foi intenso. Eu não sabia estar exposta daquela forma.

Então, eu estava perto dos 18, como uma recém-nascida no mundo pós-pandemia. Quais passos vou dar agora? Como vou me expor nesse vasto mundo agora completamente novo e sedento por novas histórias?

Nada de muito grande aconteceu comigo, só o fato de que agora tiro fotos de forma consistente e aleatória. Em determinado momento da minha jornada de busca, percebi que não custava nada tirar foto. Então foi um hábito que criei e sempre recebo elogios por isso. Fico feliz por algo tão simples para mim ser reconhecido.

Eu já não via mais tanto sentido em sair. Músicas muito altas e muitas pessoas no mesmo lugar…(era pavoroso ver pessoas em grandes escalas na minha frente). Então, o processo de quebra de personalidade não foi algo muito radical aos olhos que viam de fora. Mas por toda a socialização que a vida exigiu pós-pandemia, eu não sabia expor o que eu era. E hoje vejo que essa necessidade nem existe de verdade. Mas, para o sentimento da época, era totalmente válida.

Por toda forma de encontro com a minha clareza, vi que era introvertida, e no começo isso era negativo para o meu pensamento. Comecei a forçar minha extroversão e uma exposição ao mundo de uma forma que não correspondia com quem eu era. O resultado? Sumiço.

Rapidamente, me retirava de tudo em que estava envolvida e voltava a me encontrar comigo mesma, no silêncio.

Me via da mesma forma de quando tinha 16 anos: eu não sabia quem era. Mas agora eu já tinha um vislumbre do caminho que teria de caminhar e, com isso, pude equilibrar minha quietude com a minha parte extrovertida, que hoje sei que existe, mas de uma forma limitada.

Hoje sei até onde posso ir e sei também o caminho para voltar quando é preciso.

Vejo que algumas pessoas ainda não compreendem exatamente o que é a introversão e, menos ainda, como funcionam os limites da convivência saudável que uma pessoa introvertida precisa estabelecer para justamente ser saudável e conseguir se expor ao mundo.

A escrita, a música instrumental, as práticas incessantes de meditação, todos os períodos de autoanálise me trouxeram a luz necessária para continuar, de forma saudável, a próxima década da minha vida.

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