Dia 2
Casa de infância.
Pela primeira vez na vida, estou morando de forma adulta na casa onde cresci. Ela tem 22 anos, eu 20. Muita coisa mudou desde então, mas, em determinado momento, não mudaram mais. As coisas permanecem nos mesmos lugares e dificilmente mudam.
Essa é a casa da minha avó. Eu não morei aqui a vida toda, mas estive presente o suficiente para que ela fosse uma grande memória da minha infância. Lembro quando ainda estava em construção – a casa foi crescendo conforme eu crescia. Uma das minhas lembranças mais vívidas é de quando ela ainda não era totalmente branca. Havia um degrau para sala, onde meu pai dormia enquanto as obras seguiam nos outros cômodos. Hoje, as paredes continuam as mesmas, mas o degrau não existe mais.
Quando eu tinha seis anos, essa casa parecia imensa. Para mim, era diferente das outras pelo extraordinário tamanho. Lembro da sensação de estar em um lugar tão grande. Lembro de não poder colocar a mão na parede recém branca.
(Esse é meu pai. Obviamente, não vou lembrar o contexto da foto, mas existem várias. E sempre é um parto para ele me enviar algumas do HD dele)
Em algum momento da minha vida, ao voltar aqui depois de mais velha, senti que a casa havia encolhido. Desde então, vivo com essa sensação. Outra mudança que percebo é a forma como o espaço está sendo usado. Hoje, durmo no quarto que já foi do meu pai e trabalho no escritório que antes também era dele. É estranho criar uma intimidade com esses lugares, sabendo que tiveram outros significados antes de mim. Esse quarto também já foi das minhas irmãs mais novas antes de ser meu. Às vezes, ainda sinto que ele não é completamente meu, mas, de alguma forma, acho confortável em chamá-lo de meu espaço.
Outro lugar que me marcou foi minha segunda casa em Americana. Meu quarto tinha uma janela de onde eu via um pedaço discreto do centro da cidade, a paisagem mesmo era o céu de todos os dias e a luz do poste que entrava e fazia sombra na parede à noite. Eu sempre deixava a janela aberta, mesmo quando chovia (gostava dever até onde a água conseguia chegar).
Aquela casa me abrigou durante toda a pandemia. Não era enorme, mas ninguém passava aperto. Foi lá que meu irmão cresceu. Ele ainda lembra da casa e dos detalhes, mesmo não morando mais lá.
O Guilherme tem sido meu melhor amigo desde que nasceu. Sempre cuidei dele e sinto falta de ter ele no meu dia a dia. Ele cresceu e hoje já é praticamente um jovem (não gosto de lembrar disso — para mim, ele sempre vai ser um bebê)
Meu quarto tinha um guarda-roupa de madeira clara, lindo. Eu costumava colar minhas anotações na parte interna das portas. Quando elas estavam abertas, a sensação era de estar dentro da minha própria mente. Meu passatempo era ficar ali, com a luz baixa do poste, as portas do armário abertas e música tocando ao fundo. Nessa época, eu já sabia que gostava de escrever, então as noites eram todas assim.
Durante o dia, eu trabalhava fora. Quando chegava por volta das 16h, passava um tempo com meu irmão até sentir que não conseguia mais socializar. Minha mãe e ele sempre respeitaram esse meu momento de pausa – uma necessidade que tenho até hoje para manter minha mente saudável. Talvez eles nem saibam disso, mas foram as pessoas que mais me abraçaram.
(Esse é o Gui. Nessa foto, ele devia ter uns 4 ou 5 anos. Estávamos em um restaurante onde costumávamos ir às quintas ou aos sábados. Minha mãe adorava aquele lugar, e sempre que estou em Americana, é o primeiro pensamento que vem à minha mente. Também é sempre a primeira recomendação que dou quando o assunto é comida gostosa na cidade.)
Hoje eu tenho mais clareza dos ambientes que quero estar e quais tipos de coisas não quero por perto, justamente por todas essas tomadas de consciência que tive até aqui.
Sou o tipo de pessoa que não se importa em ficar sozinha, inclusive, é algo que prezo e procuro manter de forma clara na minha rotina. Eu sei que é necessário para minha clareza estar sozinha e apenas digerir as coisas à minha volta, sejam pessoas, situações… a vida no geral. Algumas pessoas não recebem isso muito bem e acabam julgando essa necessidade e o cuidado que tenho por mim mesma.
Prezo muito pelo meu bem-estar comigo mesma, gosto de ver significado nas coisas que me cercam, e não poder ter meu momento contemplativo é ofensivo. Aprendi isso da forma mais radical possível. Mas hoje sei medir e perceber quando posso ser afetada de alguma forma. Algumas situações ainda me pegam de surpresa, mas eu também só tenho 20 anos.
Não tenho medo ou receio de me retirar de lugares, deixar pessoas ou mudar de ideia. Depois que passei pelo meu processo de autoconhecimento, em meados de 2019, muitas coisas deixaram de ser importantes e outras se tornaram prioridade. Depois disso, as pessoas que tive por perto, a saúde das minhas relações e os ambientes se tornaram um espelho — tanto para ver quem eu sou quanto para me mostrar quem estou sendo no momento (são coisas diferentes).
Normalmente, temos boas intenções, mas, às vezes, não sabemos externalizar isso da forma que sentimos ou pensamos.
Estar aqui e saber de tudo isso com base somente nos meus sentimentos me faz duvidar, às vezes, se realmente sei de alguma coisa. Afinal, essas coisas são minhas e não sei se cabem a outra pessoa. Sei que me cabem e me ajudam a ter um equilíbrio.
Às vezes, penso no futuro como uma forma de só ter mais dessas coisas dentro de mim. Sou uma pessoa sensível, então eu choro. Nunca me ensinaram a chorar quando algo grande é sentido. As palavras me confortam quando preciso, e raramente não sei colocar em palavras o que sinto. Ter essa consciência sobre mim mesma me permite seguir em frente de forma mais confiante e forte, me abre portas e me deixa ser eu mesma nos momentos em que realmente preciso ser eu mesma.
Não ser a Lívia em determinados momentos já me trouxe grandes frustrações. Hoje vejo que, nos momentos em que tentei ser outra pessoa ou esquecer quem eu era por algo, eu não deveria estar ali de qualquer forma. Tanto é que nada desses momentos continuou comigo — todos se foram quando percebi que não estava feliz comigo mesma. O que, para mim, é a maior das traições: ser tanto e não poder mostrar que sou.
Estou feliz de estar fazendo isso por mim mesma, e até pelas pessoas que convivem comigo. Todo ganho, benefício ou evolução que tenho não se aplica só à Lívia, mas a todo o conjunto que me faz ser eu no momento.
Mas isso, de certa forma, ainda sinto que esteja sendo algo só pela minha realização, pelos meus sentimentos e sonhos. Por mais que eu não saiba o que estarei vivendo aos 40, sei que vai ser legal contar que, uma vez, fiz algo que queria só porque estava afim.