Dia 1
Hoje, sendo o dia 1, acredito que vale o contexto.
Daqui 21 dias estou completando 21 anos e eu ainda não sei o que isso significa. Eu tive a ideia de escrever por 21 dias de forma pública até os meus 21 anos. Escrever e expor minha escrita vem sendo uma meta há algum tempo e nunca soube ao certo como colocar isso no mundo. Talvez não exista uma forma certa de fazer isso também.
Eu era o tipo de pessoa que pensava em organizar e planejar tudo antes de fazer algo. Obviamente, não dava certo. Me mantinha no mesmo lugar, só que com mais coisas em mente e sem direciona-las. Talvez isso venha do medo do fracasso ou de não ter o suficiente para lidar com algum imprevisto no meio do caminho.
Ultimamente, tenho sido forçada pela vida a mudar e a me adaptar à mudança. Então, aceito esse movimento da vida e faço o que me cabe no momento, com as coisas que tenho disponíveis. E eu tenho um blog disponível para escrever. Então, o que exatamente eu estou esperando? As palavras uma hora vão ter que sair de alguma forma.
Ainda não sei qual vai ser o formato exato desses dias e nem como eles vão correr. A graça vai ser justamente não saber. Ter que abordar cada dia de uma forma única, que só cabe a ele.
Comecei a ler um livro ontem que me deu a sensação de que também posso escrever algo grande e significativo. Mais cedo, no meu diário, escrevi:
“Eu quero escrever um livro, mas tenho medo de que ele pareça bobo. Sempre tive receio de expor minha escrita, por mais que essa seja minha vontade. De parecer primitiva ou normal demais. Minha meta é escrever mais essa semana e manter isso, só para voltar o senso de que sei traduzir minhas ideias. O livro que estou lendo tem um estilo de escrita que nunca li, e estou gostando. Às vezes, esbarro no pensamento de que uma hora ele vai acabar, como se fosse o único livro. Mas esse livro é diferente. Ou talvez seja meu momento de vida que esteja trazendo tanta importância.”
Faz um bom tempo que tenho esse blog, mas nunca explorei estar aqui. O primeiro passo eu dei há muito tempo, talvez eu só precisasse de tempo para dar o segundo e os próximos vinte. Estou fazendo isso por mim mesma, pelas minhas ideias e vontades. De vez em quando, eu sinto que falta algo, que deveria estar fazendo alguma coisa ou indo a algum lugar, e tenho uma lista bem grande de coisas que podem me trazer essa sensação.
É estranho o pensamento de que vou fazer 21 anos. Alguns anos atrás, eu estava trancada em casa no meio de uma pandemia, descobrindo quem eu era. Ver o tempo dessa forma é assustador, mas também é um alívio ver que ele passa da mesma forma, independente da situação. Se for algo ruim, a gente aceita que uma hora vai passar. E, se for algo bom, a gente tenta ao máximo aproveitar.
O livro que estou lendo é um diário de um corredor japonês, que, na casa dos 30 anos, descobriu que poderia escrever romances. Ele era dono de um bar de jazz e trabalhava nas duas coisas ao mesmo tempo: no bar e nas escritas. Algo de muita significância para mim, que encara as coisas da forma mais radical e absurda. O livro está servindo para colocar os pés no chão e está sendo bom para outras coisas também. Não posso ser injusta dessa forma. O livro se chama “Do que falo quando falo de corrida”, do autor Haruki Murakami. Um livro curto e fluido, uma espécie de diário. Está sendo uma aventura ler. Ontem li metade e só parei porque estava com sono e, a partir daquele momento, já não ia conseguir mais prestar atenção.
Hoje o dia começou de uma forma que ainda vou procurar algo para dar de exemplo. Mas, quando o despertador tocou, minha mente voltou à consciência igual um raio, rasgando quaisquer boas-vindas que o dia poderia me dar. Estou no dia 29 do meu ciclo e, para quem não entende a linguagem dos ciclos femininos, é equivalente a pular do precipício da loucura. (Me sinto dessa forma. As garotas vão me entender.) Tudo até agora foi muito difícil. Todo o meu trabalho foi um parto, porque as coisas nesses dias do mês insistem em não colaborar. Meu Deus, eu só sou uma garota de 20 anos que sente cólica.
O treino foi difícil e até encarar o pensamento de que meu corpo não está no mesmo ritmo de duas semanas atrás é frustrante. Mas, em algum momento até aqui, eu consegui a clareza para me tirar do círculo da loucura em que estava. Depois disso, passei a lidar comigo mesma de uma forma mais leve e compreensiva. Afinal, eu não preciso ser minha inimiga.
Sempre me sinto uma garota crescida quando me vejo nessas posições de cuidado, principalmente quando o cuidado é para mim mesma. Durante muito tempo, eu me tratava de uma forma não muito saudável (de uns três anos para trás). Me sinto minha amiga desde então, e tem sido reconfortante saber que ao menos eu vou estar aqui caso algo negativo aconteça.
Estou feliz por estar aqui, por estar me permitindo ter essa experiência inicial e poder fazer isso da minha forma, sem pressão e expectativas. Aqui, me permito até ser mais próxima de mim mesma e me conhecer em outras situações. Considerando que agora estou mais perto dos 21 do que dos 20, posso ser uma nova Lívia também.