DIA 17
12/09/2022
Como ser sincera comigo mesma é a questão da vez — que não tem uma resposta certa, concreta.
Existem muitas perguntas sem resposta que eu gostaria de entender.
É frustrante achar que a cura que te curou no passado vai te curar agora, depois de todos os passos que você deu na sua caminhada.
Achar que os porquês vão se encaixar novamente é… ignorância.
Como encontrar as novas respostas? Como saber exatamente o que fazer para sair dessa situação?
Eu também não sei. Se soubesse, juro que falava.
Um ponto em que eu sempre volto nesse processo de cura interminável é o dar um passo de cada vez.
Antes de você sentar no olho da tempestade, você precisa reconhecer que a tempestade existe.
03/10/2022
A mesma linha de ônibus.
Eu mudei meus horários, mudei de casa, tive que obrigatoriamente mudar de hábitos.
A verdade mais singela que paira sobre minha vida hoje é que não reconheço mais nada.
Não sei quem eu sou. Sei quem já fui — e sinto saudades, remoendo tudo o que já passou, porque eu sei que lá, em certo momento, eu estava bem.
Saio de casa e a nova linha de ônibus passa por praticamente os mesmos lugares, mas o sol ainda não é alto o suficiente para atravessar as árvores que antes eu admirava.
Fazendo o mesmo caminho todo dia, comecei a me perder no lugar.
Não sei mais por on
de tenho passado.
Sei que cortaram algumas árvores que eu gostava de ver indo para o trabalho.
No momento em que percebo “não sei se vale mais a pena”, realmente me perco — como se mandasse a vitalidade da minha alma para longe, e fico somente com essa sensação do corpo físico, adoecido sem a mente.
Os dias, novamente, se tornaram semanas…meses.
Me olho no espelho e não sei mais quem é aquela menina.
De novo, eu fiz o favor de me desclassificar.
Negligenciada por mim mesma, fazendo questão de ir mais fundo.
Mesmo nesse estado, mais conhecido como fundo do poço, ainda existia uma migalha que me incomodava:
“Você precisa sair daqui.”
Quando esse incômodo é percebido, a vontade de sumir é bem forte.
Você reconhece o lugar onde não quer estar, mesmo estando ali, sem visão alguma de como sair.
Como eu poderia, de uma vez por todas, me salvar da solidão?
Solidão que eu mesma fiz questão de encontrar.
Foram momentos de cegueira.
Gostaria de não estar mais aqui. Eu sempre senti que o depois da vida seria incrivelmente leve e tranquilo.
Inclusive, se eu não estivesse mais aqui, estaria ciente de que estou no degrau que deveria estar. Estaria em paz. Sem arrependimento por não ter chegado aonde tanto quis.
Eu estava no meu máximo. (Estou. Eu ainda estou aqui.)
Faz algumas semanas que estou no caminho de tirar as palavras passadas da minha boca, buscando dizer coisas minimamente afirmativas.
Não sei realmente como sair dessa. Nunca sei — mas também sempre saio.
Gostaria de sair e nunca mais voltar.
A vida é um livro aberto.
Estou fazendo força para mudar de página, mas talvez o segredo não seja a força, e sim a aceitação.
O processo de aceitar é bem gasto também. Ele cansa.
O resultado demora um pouco a surgir efeito, mas é melhor do que não aceitar e viver uma vida medíocre.
O que me impulsiona são as pessoas que vejo no meu dia a dia.
Eu literalmente não quero ser igual a elas.
Acredito que não seja errado querer um tempo pra se recompor.
Mas já faz muito tempo que estou levando esse tempo, e não consigo mais levantar ânimo.
Estou no ponto neutro há muito tempo.
Não é todo dia que penso que seria mais fácil se eu não estivesse aqui, mas…
Não há nada no meu dia a dia que me faça gozar de alegria.
Tudo está mortificado.
Vivendo um sacrifício para poder viver dia após dia — um sacrifício.
Meus leões estão ficando cada vez mais agressivos.
Por mim, agora, só falta aceitar.
Sentir a desidentificação é algo horrível. Por um lado, libertador — mas horrível.
Sinto que estou sempre incomodando os outros ou fazendo a coisa errada.
Eu queria passar uns dias em casa — não que isso fosse adiantar alguma coisa — mas, pelo menos, meu corpo físico eu ia conseguir descansar.
Às vezes me sinto tão entrelaçada com esses sentimentos que tenho vontade de me limpar.
De tirar tudo de perto de mim: pessoas, lugares, roupas, objetos, tudo.
Tomo banho e sinto que continuo suja.
Durmo e continuo cansada. Quando sinto fome, como — mas a fome não passa.
Viver em cima desse muro imaginário é cansativo. Também não sei parar. É só algo que vai acontecendo.
Esses dias, eu estava pensando em desistir. Por um lado, sou forte. Por outro, fraca.
Sinto que faço de tudo, e tudo continua do mesmo jeito.
Odeio passar essa impressão para as outras pessoas, mas cheguei a um ponto em que não consigo mais fingir.
Eu gostaria de deitar na chuva.
02/04/2025
Alguns anos depois, vejo que algumas formas ainda são as mesmas.
Algumas amadureceram… talvez seja só a forma de encarar a situação e o sentimento que mudou.
Claramente, não sou mais a mesma.
Mas também não deixo de ser quem fui quando pego em uma caneta pra escrever.
No dia 03/10, falei sobre as árvores cortadas — e hoje, já não lembro quais eram.
Lembro do caminho que fazia, mas não das árvores.
Nem que me sentia daquela forma.
Pensar no passado é como ter uma epifania… ou uma alucinação suave do que já foi vivido.
O passado parece sempre mais reconfortante.
Faz sentido querer permanecer da mesma forma.
Pensamos e sentimos que antes tudo era confortável… “bons tempos”.
Tenho registros de muitos anos. E quando me deparo com eles, vejo como minha própria mente tenta me enganar:
o vislumbre de um passado sem problemas, sem sentimentos negativos, sem dificuldades.
A nostalgia é, de fato, uma prisão.
Hoje, percebo que sou diferente por não sentir mais saudades do passado — mas sim, do agora.
Desse presente que um dia também vai se parecer com os bons tempos.
Algumas conclusões antigas ainda servem.
A cura que me curou uma vez não vai funcionar de novo.
Mas um banho quente mostra que alguma cura sempre vai existir.
As árvores crescem.
Elas mudam a cada estação.
Eu costumava ter esse tipo de sensibilidade quando as via todos os dias indo pro trabalho.
Por que comigo seria diferente?
Estou viva como elas.
Mas elas não lamentam quando as folhas caem.
Só eu continuo lastimando por não ser mais a mesma.
Ver árvores diferentes vai me mostrar que as folhas de todos, um dia, caem.
Elas caem porque não cabe a elas lidar com a nova estação.
E hoje eu vejo que algumas das minhas também estão caindo.
E como tudo tem dois lados, sinto um enorme alívio em saber que ainda vou mudar muito.
E que um dia, quando reler este registro, vou perceber o quanto ainda não sabia de nada — comparado a tudo o que um dia ainda vou saber.