DIA 15
Lucidez x Loucura
Hoje percebi que já escrevi metade do meu diário… Faz 3 meses que comecei ele. Posso dizer que estou lucidamente no meio da loucura, mas não sei dizer o que seria a loucura – pelo menos a minha, não sei quando realmente é ela tomando conta das minhas palavras.
Acho que até o termo “loucura” seja errado. Mas, se encararmos a loucura como forma de fluidez involuntária em determinadas situações… é, estou louca. Agora até acho que “loucura” é um termo sofisticado pra situação.
Lendo algumas anotações antigas, me deparo com:
“Minha cabeça dói, e todos os lugares do corpo que utilizo no momento: a mão por escrever, os joelhos e o calcanhar ao ficar em pé, a barriga logo após comer. A culpa no ato de pensar.
O que está acontecendo.
Eu vejo o começo, o meio e o fim.”
A lucidez é um fardo muito mais pesado que a loucura. Encaro a vida com base na dualidade – sempre tem outro lado, e desse outro lado, mais um, e assim vai. O outro lado da loucura é a lucidez, o dicionário confirmou, mas eu também digo: os dois precisam de pilares do contrário para existir. Hoje eu me encaro no meio da balança, vejo que muito do que já criei vem da loucura, mas da lucidez de saber medir o que cabe no criar.
Mas, como as energias são contrárias, é difícil dizer que estou no meio da balança mesmo. Às vezes, pendo muito pra um dos lados e me perco. Quando estou lúcida demais, a vida parece estagnada, como se faltasse a magia, a imaginação, a sensibilidade.
Sempre me lembro do ep. 2 de The Midnight Gospel — a entrevistada do episódio é a escritora Anne Lamott. Em determinado momento do diálogo dos dois, ela fala sobre o vício em vinho e como achava que precisava do vinho para escrever, para se sentir confusa. E a consequência é a lucidez do lugar que ela quer chegar. Ela precisava da loucura e não do vinho, mas era o vinho que trazia a profundidade emocional que ela queria sentir pra escrever.
Me identifico com ela, menos com a parte do vinho – nunca fui fã das bebidas alcoólicas –, mas vejo como mergulhar na loucura me ajuda a ver de forma clara o que quero. Delirar às vezes faz bem, traz a lucidez.
Consigo me encontrar com a loucura e trazer ela de mãos dadas com a criatividade para criar algo, uma solução, uma nova linha de raciocínio, um texto, uma narrativa… seja o que for.
Para escrever o texto do dia 13, eu cheguei aonde precisava com a loucura, ouvindo Sweet Dreams, da Beyoncé. As mesmas batidas durante a música toda me fizeram ouvir algo além do que ela cantava. Hoje tô ouvindo Smooth Criminal e as batidas também, mas a voz dele, em diferentes tipos de tom ao mesmo tempo, deixa minha cabeça confusa o suficiente para encontrar as palavras que estou escrevendo agora.
Aonde quero chegar? Usar do “negativo” para criar, pensar ou plantar algo positivo é muito mais prático do que querer exterminar todo o negativo. As ferramentas que normalmente temos no dia a dia são limitadas ao ponto de não ter o que fazer além de aceitar. Mas se até no lixão nasce flor… o que que custa fazer de uma situação confusa e negativa um roteiro de novela?
Da anotação que compartilhei no começo do texto, tirei muitas frases e muitas conclusões para diversos tipos de situações. A lucidez me trouxe a sensibilidade de tirar do próprio corpo o sentimento, os efeitos da própria negligência — e, só com isso, perceber a loucura.
É comum também se confundir com a loucura do outro que vive por perto, mas, se você conseguir ver sem absorver, até da loucura do outro você pode trazer a lucidez.
Usar da própria loucura ou sofrimento para criar algo bom e bonito não demanda muita coisa além de outra perspectiva.