DIA 19
Conforto.
Uma vez Fernando Pessoa disse alguma coisa que eu não lembro.
Lembro de quando eu tinha 10 anos, lembro de estar no banco de trás, lembro de dormir no carro e acordar na exata esquina de casa. Lembro de gostar de olhar pelo vidro de trás do carro e ver a paisagem indo embora.
Hoje eu leio as placas e vejo se as letras montam alguma palavra ou me lembram de alguma. Tiraram as cidades das placas, como vou saber agora de onde esse carro é?
Lembro dos lápis de cor e da noite escura que meus pais me ensinaram a pintar do jeito certo.
“Você não pode mudar a direção do lápis, filha, senão a textura fica diferente”, disse meu pai.
“Dá pra pintar fazendo círculos com o lápis”, reforçou minha mãe.
Lembro de um desenho meu no quarto ano ter sido usado como referência pra classe.
“Olhem a mistura de azuis”, a professor
a falou.
Uma vez o Fernando Pessoa falou alguma coisa e eu vou lembrar o que era.
Lembro da minha primeira aula de natação, lembro de detalhar a aula inteira para minha avó quando cheguei em casa depois.
Lembro que, 9 anos depois, parei de nadar.
Lembro de uma casa em Angra dos Reis, lembro de ter batido com a cabeça na porta de vidro.
Lembro do vestido branco no Ano Novo
.
Lembro que a casa ficava no alto de uma costa e que o mar dali era infinito.
Lembro de pintar com minha avó com lápis de madeira grossos.
Meu cabelo já era castanho-escuro naquela época.
Lembro de todas as vezes que ouvi que meu cabelo não era bonito, por ser armado.
Lembro de estar na frente do Theatro Municipal e pedir pra colocar a música 17 no rádio. Fadas – do Victor e Leo.
“Você já sabe até o número da música no CD”, meu pai fala surpreso.
Lembro de descobrir que minha mãe gosta de reggae e que, durante um tempo da vida dela, ela ficou na praia.
Fernando Pessoa uma vez falou algo sobre ser várias pessoas, sobre se sentir vários seres. Lembro da identificação que senti quando li pela primeira vez.
Lembro de estar me procurando em outros lugares. Quem sabe uma Lívia nova não cruza a esquina. Quem sabe aquela não é o novo Eu.
Lembro de pular corda na garagem de casa, lembro de dormir de tarde e acordar à noite desorientada, me perguntando que dia era.
Lembro da primeira vez que não souberam escrever meu sobrenome.
Até hoje: “É H-A-I-L-E-R”
“Ailer?”
– “Não… é Hailer mesmo, com som de R.”
“Bonito o nome”, a maioria diz.
“Da onde é?”
– “Alemanha…”
“Você tem traços turcos… árabes, sua sobrancelha é grossa, bonita.”
Lembro da primeira vez que me olhei no espelho e pensei se era bonita mesmo…
Lembro de estar aqui agora, falando comigo mesma pelas memórias.
Sendo outras Lívia’s.
Sendo tudo o que já fui, agora, sendo tudo o que eu sou.
Lembro de quando meu pai fez a tatuagem nas costas. Um sol gigante, com o símbolo do N.A no meio.
“Só por hoje, filha.” <>
Lembro de comprar o filtro de água que tinha em casa em uma dessas viagens que a gente fazia.
Lembro de ajudar a organizar os adesivos na mesa das palestras.
Fernando Pessoa uma vez disse:
“Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas. Uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.”
Aqui agora eu sou eu, mas já fui outra.
Amanhã irei acordar como outra, deixarei de ser, mas irei lembrar de ter parado aqui e olhado para os meus outros Eu’s, da mesma forma que estou fazendo.
Um dia irei lembrar de algo que ainda não vivi e comparar com o meu eu de 10 anos, de novo.
Fernando Pessoa falou:
“Como o panteísta se sente árvore (?) e até flor. Eu sinto-me vários seres.”
Olhando para todas as coisas que lembro, me sinto em uma sala cheia de espelhos, vendo todas as vidas que já vivi sendo Lívia.
Ainda continuo pintando em uma só direção e, às vezes, em círculos.
Meu cabelo ainda é castanho-escuro e armado…
Lembro de ser a Lívia, lembrando de todas as Lívia que já fui.